Jaques Wagner confirma candidatura ao Senado após ser alvo da Operação Compliance Zero e nega acusações.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), afirmou que sua candidatura à reeleição está mantida, mesmo após ter sido alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Compliance Zero nesta quinta-feira, 18.
Segundo o senador, não há motivos para retirar seu nome da disputa. Wagner também negou qualquer relação irregular com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, instituição investigada pela Polícia Federal.
Em entrevista à TV Band, Jaques Wagner disse estar seguro em relação à sua vida pública e pessoal. O senador afirmou que não possui empresas e que seu patrimônio está declarado no Imposto de Renda.
“Minha candidatura está absolutamente mantida. Estou muito seguro de tudo que fiz, estou muito seguro da minha vida pessoal. Eu não tenho CNPJ, eu só tenho CPF. Não tenho empresa, não tenho nada. Eu tenho um apartamento, que é onde moro, e meu sítio em Andaraí, este é meu patrimônio e está declarado no Imposto de Renda. Em 2018 eu era candidato, fui alvo de busca e apreensão no caso da Fonte Nova e fui o senador mais bem votado da história. Não tenho porque retirar minha candidatura”, afirmou Jaques Wagner em entrevista à TV Band.
O senador também revelou que recebeu uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teria prestado solidariedade após a operação.
Questionado sobre uma possível saída da liderança do governo no Senado, Wagner avaliou como “muito difícil” uma mudança nesse momento.
“A liderança do governo fica a cargo do presidente [Lula], com quem falei hoje e acho, sinceramente, muito difícil que ele mexa na minha posição pela relação que ele tem em mim. […] Eu continuo na liderança até que o presidente Lula peça para me retirar”, declarou ele.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou parcialmente medidas de busca e apreensão em endereços vinculados a Jaques Wagner, a seus familiares e a gestores do antigo Banco Master.
A Polícia Federal apura se gestores do Banco Master teriam repassado vantagens indevidas ao senador em troca de influência parlamentar.
Um dos supostos indícios apontados pela Polícia Federal seria a aquisição de um apartamento no empreendimento de luxo Poème Horto, em Salvador, no valor de R$ 2,5 milhões.
Segundo a investigação, Jaques Wagner teria enviado dados da unidade e do corretor para Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro. A PF sustenta que Lima teria operacionalizado a compra por meio de estruturas societárias para ocultar o beneficiário final.
Outro eixo da investigação envolve a empresa BN Financeira Ltda., vinculada ao núcleo familiar do senador, especificamente ao seu enteado, o secretário estadual de Meio Ambiente, Eduardo Sodré.
As investigações identificaram uma transferência de R$ 3,5 milhões da empresa PKL One Participações, ligada a Augusto Lima, para a BN Financeira.
A Polícia Federal investiga se as supostas vantagens teriam relação com a atuação de Jaques Wagner no Senado em temas de interesse do Banco Master.
Um dos pontos citados seria uma eventual atuação favorável a uma emenda apresentada por Ciro Nogueira (PP-PI) para ampliar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A busca e apreensão realizada na manhã desta quinta-feira resultou na apreensão de cerca de US$ 55 mil, equivalentes a R$ 284,1 mil, e 33 mil euros, equivalentes a R$ 196,3 mil.
Também foram apreendidos dois celulares de Jaques Wagner. As diligências fazem parte da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo o antigo Banco Master.
O senador baiano explicou os diálogos com Augusto Lima sobre a aquisição do apartamento e afirmou que não houve transferência de patrimônio para ele.
Segundo Wagner, a conversa envolvia a possibilidade de Lima adquirir o imóvel primeiro para, posteriormente, revendê-lo à filha do senador.
“É um apartamento que está em construção aqui no Horto e eu tinha o interesse de ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Augusto Lima é um investidor eu disse a ele: você pode comprar e depois eu vou recomprar, porque o apartamento está em construção, não está pronto. Eu teria que vender o apartamento de minha filha para poder complementar e pagar o apartamento, ou ela financiar. Não tem nenhuma transferência de patrimônio para mim”, alegou Wagner.
Sobre a suspeita de atuação como lobista do Banco Master no Congresso Nacional, Jaques Wagner afirmou que encaminhou voto contrário ao aumento do Fundo Garantidor de Créditos, medida que seria de interesse de Daniel Vorcaro.
O senador também disse ter apoiado a instalação da CPI do Banco Master por não ter qualquer preocupação com as investigações.
“O governo foi contra e eu como líder do governo encaminhei contra essa emenda de ampliação do Fundo Garantidor. (…) Eu assinei a CPI do Banco Master, apesar de que não sei o que a CPI do Banco Master poderia acrescentar, porque, na verdade, as investigações já foram longe. Do meu ponto de vista, está tudo exposto, mas fiz questão de assinar para não parecer que eu tivesse qualquer preocupação com relação a essa CPI. Se ela for instalada, aí depende do Congresso, eu eventualmente participarei” disse o petista.
Durante a entrevista, Jaques Wagner afirmou que os dólares encontrados pela Polícia Federal são referentes a diárias recebidas do Congresso Nacional em viagens ao exterior, além de parte ser uma quantia comprada por ele.
“O dinheiro, várias vezes viajei pro exterior. Mandei até levantar: de diária eu recebi 70 mil dólares. Eu fui viajar e comprei via Banco do Brasil. Então não tenho nada para esconder desse dinheiro. Do ponto de vista do dinheiro, estou absolutamente tranquilo”, esclareceu.
Jaques Wagner também negou ter relação com Daniel Vorcaro. Segundo o senador, ele encontrou o empresário apenas em duas ocasiões.
Na primeira, Augusto Lima o teria apresentado a Vorcaro quando o empresário passou a ser sócio no Credcesta. Na segunda, Wagner disse que Vorcaro pediu a ele a indicação de um consultor jurídico para o Banco Master.
“Eu nunca tive participação em nenhuma conversa com Daniel Vorcaro. Eu conheci esse senhor duas vezes: a primeira vez foi que ele virou sócio de Augusto Lima; e a segunda vez foi quando levei o ministro Lewandowski porque Augusto Lima me pediu uma indicação e eu fui levar para apresentar o ministro. Fora isso, nunca estive com ele [Vorcaro]”, relatou.
Wagner também comentou uma mensagem que teria sido enviada por Augusto Lima ao senador em 29 de março de 2025. Na conversa, segundo o relato, o empresário escreveu: “Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso!!”.
“As palavras do Augusto Lima, que eu sinceramente não me lembro, mas que foram relatadas por alguém à PF, na minha opinião, o que ele quis dizer é que eu conheço a história dele e eu conheço. Ele era vendedor de consignado, era uma pessoa que trabalhava e que resolveu adquirir a Cesta do Povo, que era um trambolho que eu recebi dos governos anteriores, que a gente privatizou”, opinou Wagner.
A Operação Compliance Zero apura suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o antigo Banco Master, Daniel Vorcaro e possíveis desdobramentos políticos do caso.
Jaques Wagner nega as acusações e afirma estar tranquilo em relação às apurações. A investigação segue em andamento, e as medidas cumpridas nesta quinta-feira ainda serão analisadas pelas autoridades responsáveis pelo caso.
