Siemaco: presidente de sindicato em Salvador é acusado de assédio, fraude eleitoral e desvio de dinheiro.
Maurício Borges Leal Roxo, presidente do Sindicato dos Terceirizados, dos Trabalhadores da Limpeza Urbana e do Asseio e Conservação de Salvador (Siemaco), virou réu em uma ação com valor de causa fixado em R$ 457 mil, que tramita na Justiça do Trabalho da capital baiana.
Ele é acusado de ter cometido assédio moral e sexual, ameaças e monitoramento indevido no ambiente de trabalho. A ação também reúne denúncias de fraude eleitoral e suposto desvio de recursos sindicais.
A vice-presidente da entidade, Maria de Lourdes Borges Teles de Brito, é uma das denunciantes do caso. Segundo relato feito por ela ao Ministério Público do Trabalho da Bahia (MPT-BA), obtido pelo BNEWS, os episódios teriam começado depois que ela recusou convites para sair feitos por Maurício em seu celular funcional.
Após as negativas, Maria afirma que passou a sofrer ameaças e retaliações no ambiente sindical.
Na denúncia, Maria também afirma que o presidente teria feito comentários preconceituosos contra trabalhadores LGBTQIA+, referindo-se ao sindicato de forma pejorativa como lugar de “viadagem”.
Ela ainda descreveu falas machistas atribuídas ao dirigente, incluindo questionamentos sobre a capacidade profissional das mulheres e tentativas de controlar seus relacionamentos afetivos.
Maria de Lourdes também acusa Maurício de instalar diversas câmeras com captação de áudio em locais como a recepção e o refeitório, sem informar os trabalhadores.
Segundo a denúncia, as gravações teriam sido utilizadas para vigiar e questionar a movimentação dos funcionários dentro da sede do sindicato.
Maurício Roxo também é acusado de irregularidades financeiras na gestão do Siemaco. Segundo a ex-contadora da entidade, Elaine Cristina Ferreira, teria ocorrido uma retirada de R$ 20 mil da conta do sindicato para fins pessoais do presidente.
Ela também relatou a emissão de recibos referentes a serviços de assessoria que, segundo sua versão, nunca foram prestados.
A ex-contadora afirmou ainda ter sido coagida por Maurício a confeccionar recibos retroativos de mensalidades e a lançar entradas fictícias no sistema ProSind.
Segundo Elaine, o objetivo seria tornar candidatos da “Chapa 01” aptos a concorrer às eleições, mesmo estando inadimplentes.
As inconsistências contábeis apontadas na ação também incluem dados do exercício de 2024. Naquele ano, o sindicato registrou déficit de R$ 165 mil.
Ao mesmo tempo, o Balancete de Verificação teria registrado disponibilidade financeira total superior a R$ 647 mil, com saldo em dinheiro de R$ 391 mil no caixa.
A prática é descrita na denúncia como incompatível com normas de governança e possível meio de ocultar movimentações irregulares.
Elaine também relatou que foi solicitada a lançar no sistema financeiro do sindicato recibos referentes a pagamentos mensais a Marileide Santiago Borges e Cassandala Santiago Borges, apontadas como parentes de Maurício.
Segundo a ex-contadora, a justificativa seria a prestação de serviços de limpeza, mas as atividades teriam sido executadas por outras pessoas.
A contadora também informou que funcionárias cedidas ao sindicato eram obrigadas a repassar parte do salário diretamente ao presidente.
Segundo o relato, as colaboradoras Gilmara Nunes Rebouças e Amanda do Nascimento Próculo Melo, cedidas pela Confederação do setor, a Conascon, para prestar serviços ao sindicato, ficariam apenas com um salário mínimo e devolveriam a diferença a Maurício.
Em nota enviada à reportagem pelo departamento jurídico, o Siemaco-Salvador negou todas as acusações imputadas à entidade e atribuiu as denúncias a uma suposta disputa eleitoral pelo comando do sindicato.
De acordo com a defesa, em dezembro de 2025, Maria de Lourdes tentou registrar uma chapa concorrente à atual gestão após não integrar a chapa liderada por Maurício Roxo.
Segundo a nota, no dia 11 de dezembro, a chapa encabeçada por Maria de Lourdes teve seu registro indeferido pela Comissão Eleitoral. A decisão teria ocorrido em razão da constatação de irregularidades e do descumprimento de requisitos estatutários.
A defesa sustenta que, a partir desse episódio, Maria teria iniciado uma sucessão de “falsas acusações e denúncias” de assédio moral, institucional e sexual contra Maurício.
Em relação às denúncias sobre supostas fraudes financeiras, o jurídico do Siemaco informou que todas as prestações de contas foram regularmente apresentadas, discutidas e aprovadas em assembleias.
Segundo a defesa, a aprovação das contas constaria em atas assinadas, inclusive, por Maria de Lourdes Borges Teles de Brito.
“O sindicato reafirma que inexiste qualquer irregularidade na gestão financeira da entidade, estando todas as movimentações e prestações de contas devidamente documentadas, aprovadas pelos órgãos competentes e submetidas ao conhecimento dos associados”, afirma o Siemaco.
Na nota, o sindicato afirma que o caso tem origem em uma disputa político-institucional ligada ao processo eleitoral sindical.
“A cronologia dos acontecimentos demonstra que o conflito atualmente submetido ao Poder Judiciário possui origem em uma disputa político-institucional surgida no âmbito do processo eleitoral sindical e posteriormente ampliada por meio dessas falsas acusações para diferentes esferas administrativas e judiciais. As sucessivas acusações formuladas após o indeferimento da chapa eleitoral possuem estreita relação com a disputa interna pelo comando do sindicato e com as divergências políticas surgidas naquele contexto, nos quais tais fatos vêm sendo utilizados para promover desgaste à imagem institucional da entidade e de seu presidente”, diz a nota.
O caso segue em tramitação na Justiça do Trabalho de Salvador. As acusações ainda serão analisadas no curso do processo, com manifestação das partes, apresentação de provas e avaliação judicial.
Até decisão final, as denúncias permanecem como acusações em apuração, enquanto o Siemaco-Salvador e Maurício Roxo negam irregularidades e atribuem o caso a uma disputa interna pelo comando da entidade.
