segunda-feira, 26 outubro 2026

Lula reeleito: o que esperar da economia brasileira nos próximos quatro anos?

Novo mandato de Lula terá desafios relacionados à dívida pública, inflação e crescimento econômico. Especialista aponta oportunidades em infraestrutura, indústria e energia renovável, mas alerta para a necessidade de equilíbrio fiscal.

Lula é reeleito presidente: quais serão os desafios da economia até 2030?

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República, no domingo (25), abre um novo ciclo de discussões sobre o futuro da economia brasileira entre 2027 e 2030.

Aos 80 anos, Lula conquistou seu quarto mandato presidencial após uma disputa acirrada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), recebendo 51,79% dos votos.

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Com passagens pela Presidência entre 2003 e 2010 e novamente a partir de 2023, o petista construiu sua trajetória política com ênfase na valorização dos trabalhadores, na ampliação das políticas sociais e na participação do Estado no desenvolvimento econômico.

Entretanto, o próximo mandato deverá enfrentar desafios relacionados ao controle da dívida pública, ao equilíbrio das contas governamentais, à inflação e à necessidade de ampliar o crescimento econômico.

Segundo a economista Juliana Ianhz, o cenário combina oportunidades de investimento com riscos que poderão limitar a capacidade do governo de cumprir suas propostas.

Reeleição de Lula pode reduzir incertezas sobre política econômica

Na avaliação de Juliana Ianhz, a continuidade de Lula na Presidência permite antecipar parte das diretrizes que deverão orientar a política econômica nos próximos quatro anos.

A especialista considera que o novo governo tende a preservar as principais características do terceiro mandato, especialmente a manutenção de políticas sociais e a utilização de investimentos públicos como instrumentos de estímulo econômico.

“Todo mundo sabe que o Lula vai seguir a mesma cartilha do terceiro mandato. É um governo que vai continuar gastando, que vai continuar tendo as mesmas orientações fiscais. A gente continua sujeito às condições financeiras do resto do mundo. A evolução da economia chinesa e o preço das commodities, entretanto, continua igual, podendo ter oportunidades se o resto do mundo crescer, mas a gente pode ter dificuldades se o crescimento mundial ficar mais lento”, disse ela.

Embora a continuidade administrativa possa reduzir incertezas sobre a orientação das políticas públicas, a economia brasileira continuará exposta a fatores externos, como o crescimento mundial, os preços das matérias-primas e as condições do mercado financeiro internacional.

Dívida pública será um dos principais desafios do novo mandato

Entre os pontos de maior preocupação está a situação fiscal do Brasil.

Segundo os dados citados na análise, a dívida pública brasileira alcançou R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026, em um contexto de juros elevados e necessidade de financiamento das despesas governamentais.

A evolução da dívida depende de fatores como o resultado fiscal, as taxas de juros, a inflação e o crescimento da economia.

Para a economista, a ausência de um planejamento capaz de estabilizar o endividamento poderá comprometer a confiança dos investidores e ampliar a vulnerabilidade da economia.

“O câmbio fica nessa situação muito mais vulnerável, os investimentos ficam prejudicados, e o crescimento econômico é o segundo ponto que precisa de bastante preocupação. Para que ele continue fazendo tudo que ele faz e o que ele prometeu, que é um gasto contratado elevado, ele precisa ter dinheiro que vem necessariamente do crescimento econômico”, explica ela.

O desafio será conciliar as despesas já previstas com a capacidade de arrecadação do governo e as metas de equilíbrio fiscal.

Inflação e juros poderão pressionar a economia brasileira

Outro desafio para o período entre 2027 e 2030 será a manutenção da estabilidade dos preços.

A economista alerta que desequilíbrios fiscais persistentes podem aumentar a percepção de risco econômico, pressionar o câmbio e dificultar o controle da inflação.

Caso as expectativas de inflação se elevem, a política monetária poderá exigir juros mais altos por mais tempo.

Esse cenário tende a encarecer o crédito para famílias e empresas, prejudicando investimentos e decisões de consumo financiado.

Entretanto, o comportamento efetivo dos juros e da inflação dependerá também das decisões do Banco Central, do cenário internacional e da evolução da atividade econômica.

Programas sociais e investimentos públicos devem continuar no centro da agenda

Durante seus mandatos, Lula adotou iniciativas voltadas à ampliação do acesso à moradia, à recuperação da renda e ao estímulo econômico.

Entre os programas associados às suas gestões estão o Minha Casa, Minha Vida, criado em 2009, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), lançado em 2023, e o Desenrola Brasil, destinado à renegociação de dívidas.

A política de valorização do salário mínimo também integra as principais diretrizes econômicas defendidas pelo presidente.

Para o próximo mandato, a expectativa apontada na análise é de continuidade das políticas de transferência de renda e dos investimentos em infraestrutura.

A manutenção dessas iniciativas, contudo, deverá considerar as restrições orçamentárias e a necessidade de assegurar recursos para sua execução.

Novo PAC poderá estimular infraestrutura e indústria

O Novo PAC é uma das iniciativas que poderão continuar influenciando a política de investimentos durante o novo mandato.

O programa reúne projetos de infraestrutura e desenvolvimento, com participação de diferentes esferas de governo e do setor privado.

Na avaliação da economista, os investimentos públicos podem contribuir para estimular setores produtivos e ampliar a demanda na economia.

“A prioridade que o governo deve fazer e a manutenção dos investimentos para benefícios sociais, com a intenção de manter a demanda de consumo das famílias brasileiras e o aquecimento do investimento público em infraestrutura e no PAC, a fim de estimular a indústria através de modernização, digitalização, mas isso é muito mais difícil, especialmente num cenário de insegurança econômica e fiscal”, continuou ela.

O desafio será garantir condições financeiras e institucionais para a continuidade dos projetos, sem comprometer as metas de sustentabilidade das contas públicas.

Comércio internacional poderá abrir oportunidades para o Brasil

O desempenho da economia brasileira também dependerá do comportamento de seus principais parceiros comerciais.

O país possui presença relevante nas exportações de produtos agropecuários, minerais e industriais, atividades influenciadas pela demanda internacional e pelas oscilações dos preços das commodities.

A evolução da economia chinesa, por exemplo, continuará sendo importante para diversos setores exportadores brasileiros.

Um ambiente internacional de crescimento poderá favorecer as vendas externas e a atração de investimentos.

Por outro lado, a desaceleração de grandes economias, tensões comerciais e mudanças nos preços internacionais poderão limitar essas oportunidades.

Energia renovável e biocombustíveis aparecem entre setores promissores

A transição energética é apontada como uma das oportunidades estratégicas para o Brasil nos próximos anos.

O país possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, condição que pode favorecer investimentos em geração de energia limpa, biocombustíveis e atividades industriais relacionadas à descarbonização.

Também existem oportunidades em segmentos como a indústria extrativa e projetos associados à modernização da infraestrutura.

Entretanto, a capacidade de transformar esse potencial em investimentos dependerá das condições oferecidas aos empreendedores.

“A gente tem espaço para atração de investimentos, especialmente para energia renovável, para indústria extrativista, biocombustíveis, mas isso vai exigir previsibilidade regulatória, um ambiente de negócios mais seguro, infraestrutura e capacidade de cumprir padrões internacionais, e o Brasil não tem conseguido entregar isso”, aponta ela.

Segundo a economista, o Brasil ainda enfrenta obstáculos para criar um ambiente suficientemente estável e competitivo para aproveitar integralmente essas oportunidades.

Segurança jurídica e produtividade serão fundamentais

Além da situação fiscal, a capacidade de ampliar a produtividade deverá influenciar o ritmo de crescimento econômico.

Investimentos em infraestrutura, inovação, digitalização e qualificação profissional podem contribuir para aumentar a eficiência das empresas e a competitividade da produção nacional.

A previsibilidade regulatória também é considerada importante para decisões de investimento de longo prazo.

Para Juliana Ianhz, o próximo governo precisará avaliar sua capacidade de implementar mudanças estruturais diante das limitações políticas e orçamentárias.

“Qual vai ser o tamanho da capacidade de conseguir fazer ajustes que são caros socialmente, mas que são importantes para conseguir alinhar as coisas?”

O questionamento resume uma das dificuldades apontadas pela especialista: realizar ajustes considerados necessários sem comprometer a proteção social e a capacidade de crescimento do país.

Alckmin defende ajuste fiscal sem retirar ganhos dos trabalhadores

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou que o governo pretende revisar sua estratégia fiscal durante o novo mandato.

Segundo ele, o objetivo será melhorar a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB) por meio do crescimento econômico e da redução do ritmo de expansão das despesas.

Alckmin também defendeu que o Estado atue como indutor de investimentos e desenvolvimento, sem necessariamente assumir a execução direta de todas as iniciativas.

“Nós vamos fazer ajuste fiscal. Nós vamos fazer em cima de desperdício, privilégio. Mas mantendo os ganhos da população trabalhadora, da classe média”, disse Alckmin.

A proposta apresentada pelo vice-presidente busca conciliar responsabilidade fiscal com a preservação de políticas consideradas importantes para a renda da população.

A efetividade dessa estratégia dependerá das medidas adotadas e dos resultados alcançados durante o mandato.

Economista defende plano fiscal como prioridade do governo

Para Juliana Ianhz, a organização das contas públicas deveria ocupar posição central na agenda econômica do novo mandato.

A especialista considera que o governo precisará apresentar metas consistentes e mecanismos capazes de assegurar previsibilidade aos resultados fiscais.

“É preciso um plano fiscal crível, executável, com metas executáveis, que conseguisse entregar um resultado primário sustentável, com previsibilidade, com uma reforma tributária implementável e com resultados factíveis, que a gente conseguisse inclusive direcionar um tanto do financiamento público para projetos de aumento de produtividade, e políticas sociais compatíveis com cenário de estabilidade macroeconômica, em um curto prazo.”

A avaliação destaca a importância de criar condições para que os investimentos públicos e as políticas sociais possam ser mantidos sem provocar desequilíbrios persistentes nas contas do governo.

Promessas de campanha terão que enfrentar limitações orçamentárias

Outro ponto destacado pela economista é a necessidade de compatibilizar as promessas eleitorais com os recursos disponíveis.

Segundo ela, o volume de despesas já comprometidas poderá restringir a capacidade do governo de financiar novas iniciativas.

“As promessas de campanha vão sair caro para o governo e a restrição orçamentária vai ser um problema, porque a gente não vai ter dinheiro para fazer tudo o que foi prometido e a conta vai vir no longo prazo. A gente não vai, talvez, sentir tanto os efeitos desse problema fiscal neste novo mandato de Lula, talvez a gente sinta realmente os efeitos mais lá pra frente”, continuou ela.

A declaração representa uma avaliação sobre os riscos fiscais futuros, e não uma previsão definitiva de deterioração das contas públicas.

Os resultados dependerão da execução do orçamento, do desempenho da arrecadação e das decisões econômicas adotadas.

O que esperar da economia brasileira entre 2027 e 2030?

O quarto mandato de Lula começará com desafios relacionados à sustentabilidade da dívida pública, à inflação, ao custo do crédito e à necessidade de ampliar a produtividade e os investimentos.

Ao mesmo tempo, setores como infraestrutura, agronegócio, indústria, energia renovável e biocombustíveis poderão oferecer oportunidades de crescimento, dependendo das condições internas e externas.

A continuidade de políticas sociais e investimentos públicos deverá permanecer entre as diretrizes da administração federal, mas sua execução estará condicionada à disponibilidade de recursos.

Na avaliação da economista Juliana Ianhz, a prioridade será construir um planejamento fiscal consistente, capaz de oferecer estabilidade e segurança para investimentos de longo prazo.

Os próximos quatro anos, portanto, serão decisivos para avaliar a capacidade do governo de conciliar crescimento econômico, desenvolvimento social e equilíbrio das contas públicas.

Por:  Carla Melo
www.atarde.com.br

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Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo, jornalista baiano, nascido em Feira de Santana, com mais de 15 anos de experiência, é referência em notícias locais e inovação do Minha Bahia.
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