terça-feira, 23 junho 2026
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Fifa aponta conflito de interesses e pode barrar transmissões da CazéTV na Copa de 2030

A entidade máxima do futebol mundial manifestou preocupação com a estrutura corporativa da LiveMode, dona do canal de streaming. O compartilhamento de investidores com blocos de clubes brasileiros e a atuação simultânea na compra e venda de direitos esportivos geraram questionamentos nos bastidores da organização.

Questionamentos institucionais sobre a estrutura comercial da LiveMode

O canal de streaming CazéTV corre o risco de não obter os direitos oficiais de transmissão para a Copa do Mundo de 2030, torneio internacional que terá como sedes principais a Espanha, Portugal e o Marrocos. A Federação Internacional de Futebol (Fifa) estaria demonstrando forte desconforto em relação ao modelo de negócios adotado pela LiveMode, empresa que gerencia e é proprietária do canal digital. A companhia atua de forma simultânea nas frentes de compra e venda de pacotes de mídia, além de compartilhar fundos de investimento com a Futebol Forte União (FFU), um dos blocos que reúnem equipes do futebol profissional no Brasil.

De acordo com informações de bastidores colhidas durante a realização da Copa América, nos Estados Unidos, representantes do alto escalão da Fifa têm debatido o panorama de maneira reservada. A governança do futebol mundial identifica um cenário de conflito de interesses na cadeia de operações, uma vez que a agência atua ao mesmo tempo junto ao detentor original (FFU), como intermediária comercial (LiveMode) e como plataforma de exibição final (CazéTV) das propriedades de mídia esportiva. Essa configuração promete impor barreiras nas rodadas de negociação para o próximo ciclo do mundial, que já estão em andamento.

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Cruzamento de grandes fundos e a formação do nó societário

As operações da CazéTV, da LiveMode e da Futebol Forte União encontram conexões diretas por meio de duas grandes instituições financeiras: a corretora brasileira XP Investimentos e o fundo norte-americano de capital de risco General Atlantic. No decorrer do ano de 2023, o consórcio formado pela General Atlantic e pela XP liderou um aporte financeiro no montante expressivo de R$ 2,6 bilhões. A operação garantiu ao grupo a aquisição de 20% dos direitos comerciais de mídia pertencentes aos clubes da FFU (que na época adotava a sigla LFU, Liga Forte União) pelo período de 50 anos.

Cerca de seis meses após o primeiro movimento, em abril de 2024, as duas corporações financeiras anunciaram novos investimentos de capital diretamente na estrutura da LiveMode. Embora os valores desse segundo aporte não tenham sido divulgados oficialmente ao mercado, a participação societária foi classificada como minoritária. O controle acionário majoritário da LiveMode permaneceu sob a gestão dos fundadores Edgar Diniz e Sérgio Lopes, em parceria com o comunicador Casimiro Miguel.

Atualmente, a FFU congrega equipes de grande expressão do cenário nacional, como Corinthians, Fluminense, Internacional, Vasco da Gama, além de outras 31 agremiações esportivas. A LiveMode desempenhou um papel central na organização do bloco de clubes e atua como a agência exclusiva de mercado, assumindo a responsabilidade por toda a condução de ofertas e administração dos direitos de transmissão dessas equipes.

Disputa política no cenário nacional atrai posicionamento da federação

Além dos componentes estritamente societários, há uma queda de braço política no ecossistema do futebol brasileiro que pode influenciar negativamente o futuro da CazéTV. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lançou uma iniciativa estratégica com o objetivo de centralizar e unificar o campeonato nacional em uma liga única a partir de 2030. Esse projeto prevê a fusão institucional entre as agremiações da FFU e as equipes que compõem a Libra (Liga do Futebol Brasileiro, integrada por clubes como Flamengo, Palmeiras e São Paulo). Dessa forma, estabelece-se um choque de interesses entre o bloco assessorado pela LiveMode e o plano de unificação liderado pela CBF. Nesse contexto, a Fifa tende a alinhar seus posicionamentos institucionais com as diretrizes da CBF, que figura como uma de suas confederações afiliadas de maior peso político e financeiro.

Exigências e restrições regulatórias em avaliação pela Fifa

Informações vindas dos comitês que acompanham o caso nos Estados Unidos indicam que a Fifa estuda impor exigências rigorosas para conter a atuação da LiveMode. Uma das alternativas avaliadas seria obrigar a agência a optar por apenas uma função de mercado, atuando estritamente como compradora de direitos ou apenas como exibidora de conteúdo. Outra possibilidade ventilada aponta para o condicionamento de parcerias comerciais para a Copa do Mundo de 2030 à saída definitiva da General Atlantic e da XP Investimentos do quadro de sócios da agência, rompendo o vínculo indireto com a liga de clubes.

As medidas administrativas representam um freio para o modelo que vinha sendo adotado com orgulho pela empresa. Em comunicados anteriores, a agência celebrou ter conduzido ‘as negociações históricas dos direitos de mídia do Brasileirão para o ciclo 2025-2029, resultando em contratos com Grupo Globo, YouTube/CazéTV, Record e Amazon Prime Video’, o que ‘gerou um aumento de 110% na receita anual, passando de R$ 800 milhões para R$ 1,7 bilhão por temporada, com projeção de R$ 2,2 bilhões até 2029’.

O histórico de entrada das transmissões digitais no mercado da Copa

A evolução desse modelo corporativo foi monitorada de perto pela cúpula da Fifa nos últimos anos. A consolidação da CazéTV no mercado de direitos de transmissão ocorreu a partir de um rearranjo comercial da própria federação internacional. Em 2020, em meio ao cenário da pandemia de coronavírus, o Grupo Globo iniciou uma disputa na esfera judicial contra a Fifa com o intuito de revisar as cláusulas financeiras do contrato firmado em 2013, que originalmente concedia à emissora a exclusividade total das transmissões das Copas do Mundo até o ano de 2030.

Em 2022, as partes fecharam um termo de acordo no qual a emissora carioca abriu mão do direito de exclusividade para as plataformas digitais e de internet. A mudança abriu a oportunidade de mercado para que a LiveMode e Casimiro Miguel adquirissem os direitos de exibição da Copa do Mundo do Catar pela quantia de US$ 3 milhões (cerca de R$ 15,5 milhões na cotação da época), veiculando as partidas por meio de um canal na plataforma de vídeos YouTube, iniciativa que registrou índices elevados de retorno comercial e de audiência.

A partir desse novo arranjo contratual, a Globo conseguiu reduzir seus custos anuais com direitos junto à Fifa de US$ 90 milhões (R$ 464 milhões) para a faixa de US$ 40 milhões (R$ 206 milhões). No entanto, o novo escopo de aquisição garantiu à emissora de TV aberta a compra de apenas metade da grade de jogos da Copa do Mundo de 2026.

Modelo de comercialização adotado para o mundial de 2026 e índices de audiência

A redução do pacote da principal emissora do país abriu espaço novamente para a atuação da LiveMode, que acabou sendo contratada diretamente pela Fifa em 2024 para liderar as vendas de todas as partidas da competição de 2026 no território nacional. No exercício dessa função, a agência repassou sublicenças de 32 partidas para veículos como o canal N Sports e o SBT, enquanto adquiriu para si os direitos de exibição de todos os 104 jogos da tabela para transmissão ao vivo na CazéTV.

O cenário consolidou, de forma inédita, uma concorrência direta e robusta contra os veículos tradicionais durante a cobertura do torneio mundial. O desempenho de público nas plataformas reflete a nova divisão do mercado consumidor. A transmissão da partida entre a Seleção Brasileira e o Haiti, realizada na última sexta-feira, 19, registrou o alcance de 51 milhões de indivíduos que assistiram a pelo menos um minuto do confronto por meio das telas da TV Globo, SporTV e Ge TV. No mesmo período, a exibição alternativa promovida pela CazéTV foi sintonizada por um total de 37,4 milhões de dispositivos eletrônicos, atingindo um pico de 16,1 milhões de conexões simultâneas de usuários no momento de maior engajamento do jogo.

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Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo, jornalista baiano, nascido em Feira de Santana, com mais de 15 anos de experiência, é referência em notícias locais e inovação do Minha Bahia.
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