quarta-feira, 4 novembro 2026

Dólar dispara após reeleição de Lula e pressiona preços de alimentos como carne, café, açúcar e pão

Moeda americana acumulou alta de 9,2% após as eleições e chegou a R$ 5,486. Soja, milho, trigo, açúcar e café registraram valorização, aumentando o risco de reajustes nos alimentos consumidos pelos brasileiros.

Alta do dólar após reeleição de Lula pressiona alimentos e preocupa consumidores

A forte valorização do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a provocar efeitos sobre os preços de importantes produtos agrícolas brasileiros. Soja, milho, açúcar, trigo e café registraram movimentos de alta, aumentando a preocupação com possíveis reajustes nos alimentos vendidos ao consumidor.

Na semana seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a moeda americana acumulou valorização de 9,2% em relação ao real.

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Na terça-feira (3), o dólar chegou a R$ 5,486, maior cotação desde dezembro de 2025, após avançar 0,7% no dia.

O movimento ocorreu em meio à preocupação de agentes do mercado financeiro com a condução das contas públicas no quarto mandato de Lula.

Para especialistas, a permanência do dólar em patamares elevados pode aumentar os custos de produção e pressionar os preços dos alimentos, embora os efeitos não sejam necessariamente imediatos.

O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), alerta que a duração da valorização cambial será determinante para o impacto sobre a inflação.

“Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços”, afirma.

Dólar chegou a R$ 5,486 após subir 9,2%

O comportamento do câmbio passou a ocupar o centro das atenções do mercado após o resultado das eleições presidenciais, realizadas em 25 de outubro.

Na semana seguinte à vitória de Lula, o dólar acumulou alta de 9,2%.

A valorização levou a moeda americana ao maior nível desde dezembro de 2025, com cotação de R$ 5,486 na terça-feira (3).

No início da tarde desta quarta-feira (4), a moeda oscilava perto da estabilidade, depois de registrar queda durante a manhã.

Entre os fatores apontados por participantes do mercado financeiro está a incerteza sobre a política fiscal do próximo mandato presidencial.

Entretanto, a cotação do dólar também depende de variáveis internacionais, expectativas sobre juros, fluxos de investimentos e condições da economia global.

Por que o dólar alto pode encarecer os alimentos?

A valorização da moeda americana influencia os preços de produtos agrícolas porque diversas commodities negociadas pelo Brasil possuem referências internacionais em dólar.

Quando a moeda sobe, a exportação pode se tornar mais vantajosa para os produtores brasileiros, uma vez que as vendas externas geram receitas convertidas para reais.

Esse movimento pode aumentar a competitividade dos produtos nacionais no exterior e estimular a demanda internacional.

Ao mesmo tempo, a valorização pode pressionar os preços praticados no mercado interno, especialmente quando os produtores encontram condições mais favoráveis para exportar.

Além disso, parte dos insumos agrícolas, equipamentos e componentes utilizados na produção possui custos direta ou indiretamente relacionados ao câmbio.

O impacto final sobre os alimentos depende de fatores como oferta, demanda, estoques, custos logísticos e capacidade de repasse ao consumidor.

Soja sobe 3,9% e atinge R$ 152,45 por saca

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Universidade de São Paulo, identificou uma valorização dos preços da soja após o segundo turno.

Segundo a instituição, a alta do dólar aumentou a competitividade do grão brasileiro no mercado internacional, estimulando o interesse de compradores estrangeiros.

Na terça-feira (3), a saca de 60 quilos de soja estava cotada a R$ 152,45 no Paraná.

O valor representa um aumento de 3,9% em relação ao dia 23 de outubro, quando a saca custava R$ 146,69.

Com a valorização, os preços retornaram aos níveis registrados no início de outubro.

O movimento pode beneficiar produtores que comercializam o grão, mas também representa um fator de pressão para setores que utilizam a soja como matéria-prima.

Alta da soja pode afetar preços das carnes

A soja possui importância estratégica para a cadeia de produção de proteínas animais.

O farelo de soja é um dos principais ingredientes utilizados na alimentação de aves, suínos e outros animais destinados à produção de carne.

Quando o custo dessa matéria-prima aumenta, as despesas das atividades pecuárias podem ser afetadas.

Dependendo da duração e da intensidade da valorização, parte dos custos adicionais pode ser repassada aos preços de produtos como frango, carne suína e ovos.

Entretanto, esse efeito não ocorre automaticamente.

A disponibilidade de alimentos para os animais, os contratos de fornecimento e as condições do mercado consumidor também influenciam a formação dos preços.

Milho registra alta de 3% após eleições

O milho também apresentou valorização no mercado brasileiro.

Segundo o Cepea, a saca de 60 quilos estava cotada a R$ 66,19 na terça-feira (3), considerando a região de referência de Campinas, no interior de São Paulo.

O valor representa crescimento de aproximadamente 3% em relação aos R$ 64,27 registrados em 23 de outubro, antes do segundo turno.

A instituição atribuiu parte do movimento à valorização do dólar e ao avanço das cotações nos portos brasileiros.

O milho é utilizado em diferentes cadeias produtivas, incluindo a alimentação animal e a indústria de alimentos.

Por isso, alterações em seus preços podem repercutir sobre diversos produtos comercializados no país.

Analista explica efeito do câmbio sobre commodities agrícolas

O analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, destacou que a valorização do dólar influencia diretamente a formação dos preços de diferentes produtos exportados pelo Brasil.

“Teve algumas altas até bem expressivas de soja em grão e milho, porque os preços da maioria das commodities que a gente exporta são feitos de fora para dentro”, afirmou.

Segundo o especialista, os valores praticados no mercado internacional funcionam como referência para diversas negociações domésticas.

Com o real desvalorizado, os preços internos podem subir mesmo quando não ocorre uma valorização equivalente das commodities no exterior.

Entretanto, Viana destaca que outros fatores ainda limitam a intensidade dos reajustes.

Avanço do plantio da soja ajuda a conter preços

Apesar da pressão cambial, as condições de produção agrícola também exercem influência sobre os preços.

Segundo Gabriel Viana, o avanço do plantio da soja no Brasil tem contribuído para limitar aumentos mais intensos das cotações.

Até o momento analisado, as condições climáticas permitiram o andamento da semeadura na maior parte das regiões produtoras.

As principais dificuldades foram identificadas em áreas do Sul do país afetadas por chuvas intensas.

O avanço das lavouras representa um fator importante para as expectativas de oferta futura.

Quando há perspectivas favoráveis de produção, o mercado pode apresentar maior resistência a aumentos expressivos de preços.

El Niño pode trazer riscos às lavouras brasileiras

Outro ponto de atenção para o setor agrícola envolve os possíveis efeitos do fenômeno climático El Niño.

Segundo Gabriel Viana, o aumento das temperaturas associado ao fenômeno poderá prejudicar determinadas culturas ao longo dos próximos meses.

O impacto dependerá da intensidade das alterações climáticas, da distribuição das chuvas e da região produtora.

Condições de calor excessivo ou irregularidade nas precipitações podem comprometer o desenvolvimento das lavouras.

Por outro lado, situações climáticas favoráveis podem contribuir para manter as expectativas de produção e reduzir a pressão sobre os preços.

Assim, o comportamento das commodities dependerá não apenas do dólar, mas também da evolução do clima e das safras.

Preço do diesel é outra preocupação para agricultores

Além do câmbio, o custo do óleo diesel representa um fator importante para a produção agrícola brasileira.

O combustível é utilizado em máquinas, equipamentos e no transporte de insumos e mercadorias.

Com a valorização internacional do petróleo após o início da guerra no Irã, o Governo Federal passou a subsidiar parte dos preços do diesel no Brasil.

A subvenção foi renovada por mais 30 dias na semana anterior à divulgação dos dados.

Entretanto, uma eventual mudança nessa política poderá aumentar os custos enfrentados pelos produtores rurais.

“Em caso de uma mudança na política da subvenção, a gente pode ter um aumento de preço do diesel muito agressivo justamente no momento de cuidados com a lavoura e talvez até no início de colheita”, alertou Gabriel Viana.

O impacto dependerá da evolução dos preços internacionais do petróleo e das decisões relacionadas à manutenção do subsídio.

Açúcar registra 15 semanas consecutivas de valorização

O mercado de açúcar também apresentou efeitos da alta do dólar.

Segundo o Cepea, a valorização do açúcar cristal no mercado à vista ganhou intensidade na última semana de outubro, após o segundo turno das eleições.

Entre os dias 26 e 30 de outubro, o preço médio do açúcar cristal branco no estado de São Paulo chegou a R$ 128,57 por saca de 50 quilos.

O valor representa crescimento de 2,3% em comparação com a semana anterior, quando a média era de R$ 125,63.

Essa foi a 15ª semana consecutiva de valorização, a sequência de altas mais longa desde 2020.

Na terça-feira (3), a saca estava cotada a R$ 127,33, aproximadamente 1,5% acima dos R$ 125,44 registrados em 23 de outubro.

O comportamento do mercado indica pressão sobre a matéria-prima utilizada em diferentes produtos alimentícios e bebidas.

Trigo mais caro pode pressionar preços de pães e massas

O trigo também apresentou valorização em outubro, influenciado por fatores climáticos e pelo comportamento do dólar.

Segundo o Cepea, chuvas registradas durante a colheita reduziram a oferta de cereal de boa qualidade em determinadas regiões produtoras.

A limitação da disponibilidade contribuiu para elevar as cotações.

O movimento foi reforçado pela valorização da moeda americana na última semana de outubro.

No Rio Grande do Sul, o preço médio do trigo apresentou alta de 2,2% no mês passado.

O estado foi apontado no levantamento como o maior produtor brasileiro do cereal.

Como o trigo é utilizado na fabricação de farinha, pães, massas e biscoitos, a manutenção de preços elevados pode pressionar os custos da indústria alimentícia.

O repasse ao consumidor dependerá das condições comerciais e dos demais componentes do preço final.

Dólar também influencia mercado de arroz

O arroz, outro alimento importante na dieta brasileira, também passou a sentir os efeitos do câmbio.

Segundo o Cepea, a valorização do dólar na última semana de outubro voltou a estimular o interesse pelas exportações de arroz em casca no Rio Grande do Sul.

Diante da expectativa de maior demanda internacional, parte dos vendedores decidiu adiar negociações no mercado doméstico.

As indústrias, por sua vez, mantiveram cautela nas compras devido às dificuldades de repassar aumentos da matéria-prima aos consumidores.

O levantamento indica que a média de preços de outubro no Rio Grande do Sul foi a maior, em termos nominais, desde fevereiro de 2025.

O comportamento do arroz demonstra como o câmbio pode influenciar as decisões comerciais dos produtores, mesmo em mercados com forte consumo interno.

Café robusta sobe 4,1% e arábica também avança

O mercado de café apresentou valorização após as eleições presidenciais.

Segundo o Cepea, a alta do dólar contribuiu para sustentar os preços domésticos, mesmo diante de quedas nas cotações internacionais.

Na terça-feira (3), a saca de 60 quilos de café robusta estava cotada a R$ 975,32.

O valor representa crescimento de 4,1% em relação aos R$ 936,73 registrados em 23 de outubro.

O café arábica também apresentou valorização, embora em menor intensidade.

A saca estava cotada a R$ 1.611,06, aproximadamente 0,6% acima dos R$ 1.601,95 registrados antes do segundo turno.

A permanência das cotações em níveis elevados poderá influenciar os custos da indústria e os preços de comercialização, dependendo das condições de oferta e demanda.

Confira quanto subiram os preços das commodities após as eleições

Os indicadores divulgados pelo Cepea mostram a evolução de importantes produtos agrícolas entre 23 de outubro e 3 de novembro de 2026.

Produto Antes do segundo turno 3 de novembro Variação
Soja — saca de 60 kg R$ 146,69 R$ 152,45 +3,9%
Milho — saca de 60 kg R$ 64,27 R$ 66,19 +3,0%
Açúcar — saca de 50 kg R$ 125,44 R$ 127,33 +1,5%
Café robusta — saca de 60 kg R$ 936,73 R$ 975,32 +4,1%
Café arábica — saca de 60 kg R$ 1.601,95 R$ 1.611,06 +0,6%

Os preços representam cotações de referência do mercado agrícola e não correspondem diretamente aos valores pagos pelos consumidores nos supermercados.

Também não é possível atribuir toda a valorização exclusivamente ao resultado eleitoral, já que fatores climáticos, oferta, demanda e condições internacionais influenciam os mercados.

Quais alimentos podem ficar mais caros com o dólar alto?

A valorização do dólar pode afetar diferentes produtos consumidos diariamente pelos brasileiros.

Entre os segmentos mais expostos às oscilações do câmbio estão:

  • Carnes e ovos: devido à utilização de soja e milho na alimentação animal.
  • Pães, massas e biscoitos: pela influência do trigo sobre os custos de fabricação.
  • Açúcar e produtos industrializados: em razão da valorização da matéria-prima.
  • Café: diante da influência das exportações e das cotações internacionais.
  • Arroz: pela possibilidade de aumento do interesse dos produtores nas vendas externas.

Os impactos variam de acordo com os estoques, a produção, a concorrência e a capacidade de absorção de custos por cada setor.

Portanto, a alta das commodities não significa que todos esses alimentos terão reajustes imediatos ou na mesma proporção.

Alta do dólar pode pressionar inflação nos próximos meses

O principal risco apontado pelos especialistas está na permanência da moeda americana acima dos níveis observados antes das eleições.

Quando o dólar permanece elevado por um período prolongado, seus efeitos podem alcançar diferentes etapas das cadeias produtivas.

No agronegócio, a influência aparece tanto nas receitas de exportação quanto nos custos de insumos e na formação dos preços internos.

Na indústria alimentícia, a valorização das matérias-primas pode ampliar as despesas de produção.

Já para o consumidor, os efeitos poderão surgir gradualmente, conforme empresas e estabelecimentos comerciais ajustem seus preços.

A intensidade desse movimento dependerá do comportamento do câmbio, das condições das safras e dos demais fatores econômicos.

Mercado acompanha política fiscal e cenário internacional

A evolução do dólar também continuará relacionada às expectativas sobre a condução da economia brasileira durante o novo mandato de Lula.

Participantes do mercado financeiro manifestaram preocupação com o equilíbrio das contas públicas e as medidas fiscais que poderão ser adotadas pelo governo.

Ao mesmo tempo, fatores internacionais, como o preço do petróleo, os conflitos geopolíticos e o comportamento dos investimentos globais, também influenciam a cotação da moeda.

No setor agrícola, as condições climáticas e o avanço das safras serão determinantes para a formação dos preços.

A combinação dessas variáveis deverá orientar as expectativas de produtores, indústrias e consumidores nos próximos meses.

Valorização do dólar beneficia exportadores, mas preocupa consumidores

A alta da moeda americana apresenta efeitos diferentes sobre os agentes econômicos.

Para produtores que exportam commodities, a desvalorização do real pode ampliar a competitividade internacional e melhorar a remuneração das vendas externas.

Por outro lado, a valorização de produtos agrícolas e de insumos pode pressionar os custos de produção e, posteriormente, os preços pagos pela população.

Os dados divulgados pelo Cepea mostram aumentos em produtos como soja, milho, açúcar e café após o segundo turno das eleições.

Entretanto, ainda não é possível determinar a dimensão dos impactos sobre a inflação dos alimentos.

Segundo os especialistas, a principal variável a ser observada é por quanto tempo o dólar permanecerá elevado e de que maneira os diferentes setores conseguirão administrar seus custos.

Fontes: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), FGV Ibre e Safras & Mercado, conforme os indicadores e declarações divulgados em novembro de 2026.

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Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo
Gabriel Figueiredo, jornalista baiano, nascido em Feira de Santana, com mais de 15 anos de experiência, é referência em notícias locais e inovação do Minha Bahia.
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