Investigação cita tentativas de contratos no Ministério da Saúde
Investigações da Polícia Federal sobre a suposta atuação conjunta do empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, de Camilo Antunes, o Careca do INSS, e de Roberta Luchsinger mencionam três tentativas de fechar contratos no Ministério da Saúde.
As tratativas envolveriam a venda de R$ 627 milhões em medicamentos à base de cannabis, a entrega de testes de diagnóstico para dengue e outras arboviroses, além de parcerias produtivas por meio da Iquego, a Indústria Química do Estado de Goiás S.A.
Nenhuma das tratativas avançou
Apesar das negociações citadas na apuração, nenhuma das iniciativas avançou no Ministério da Saúde.
A Polícia Federal, no entanto, afirma que Lulinha atuava em “comunhão de interesses econômicos” com Roberta.
Os investigadores também dizem que o filho do presidente seria o beneficiário indireto das ações da lobista.
PF cita pagamentos a ex-chefe de gabinete de Lula
Os investigadores afirmam ainda que Roberta pagou R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito, entre outras despesas, para Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula (PT), em 2024.
No mesmo período, ela planejava a venda de canabidiol e de testes de diagnóstico.
Procurada, a defesa de Marcola afirmou que não teve acesso à íntegra dos autos e ao inquérito e que o vazamento dos conteúdos tem “objetivo de distorcer os fatos e interferir no processo eleitoral”.
A defesa também disse que os valores foram empréstimos já quitados.
Defesas negam irregularidades ou aguardam acesso aos autos
A defesa de Camilo Antunes, o Careca do INSS, afirmou que aguarda acesso aos autos para se manifestar.
Os advogados de Roberta Luchsinger disseram que só se manifestarão dentro do processo.
A defesa de Lulinha nega qualquer irregularidade.
Como advogado do filho do presidente, Marco Aurélio de Carvalho classificou como “esculhambação” a atuação de setores da PF que vazam informações.
Ministério diz que iniciativas não tiveram encaminhamento
O Ministério da Saúde afirmou que nenhuma das iniciativas citadas na investigação “teve qualquer encaminhamento ou repercussão”.
A pasta também informou que as compras são realizadas por meio de concorrências públicas.
Além das três tratativas citadas pela Polícia Federal, Roberta teve uma reunião no ministério em outubro de 2023 com representantes da Duosystem, empresa que fornece softwares de gestão de leitos e teleconsulta.
A agenda, porém, ocorreu antes da aproximação entre a lobista e Careca, e a Duosystem não fechou contratos com o governo.
Tratativas sobre cannabis medicinal estão no centro das suspeitas
As negociações para venda de medicamentos à base de cannabis estão no centro das suspeitas da Polícia Federal sobre suposto tráfico de influência envolvendo Lulinha.
A investigação aponta que Roberta e Careca se aproximaram em fevereiro de 2024.
No mês seguinte, eles participaram de uma reunião com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Plano teria sido apresentado ao Ministério da Saúde
Pessoas que acompanharam a discussão disseram que Roberta e Careca apresentaram a Swedenberger um plano para regularizar produtos para venda no Brasil.
O secretário teria respondido que o tema era de competência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em maio do mesmo ano, segundo a PF, Roberta enviou a Marcola rascunhos de documentos sobre a contratação.
Ele afirma que não repassou os papéis ao ministério.
PF diz que Roberta afirmava representar Lulinha
De acordo com a Polícia Federal, Roberta dizia representar o filho de Lula, utilizando a expressão “Eu sou o Fábio”.
Ainda segundo a apuração, ela pretendia obter 20% de remuneração sobre as vendas.
Duas pessoas ouvidas pela reportagem que acompanharam as discussões, uma com atuação no mercado privado e outra da área técnica do governo, classificaram o plano como inviável.
Negócio previa venda de 1,2 milhão de frascos
Segundo essas fontes, a ideia de Careca e Roberta era que o Ministério da Saúde centralizasse a compra para atender pacientes de todo o país com tratamentos garantidos pela Justiça.
Atualmente, estados e municípios também fornecem os produtos por determinação judicial.
O negócio envolveria a venda de 1,2 milhão de frascos ao ministério por quatro empresas, incluindo a WorldCann, ligada a Careca.
Gastos atuais do ministério seriam menores
O Ministério da Saúde, porém, tem gastos menores com esses produtos.
A pasta paga cerca de R$ 5 milhões por ano com a compra de canabidiol ou em depósitos judiciais relacionados aos tratamentos.
A maior parte das doses de canabidiol é custeada por estados e municípios, que são os principais alvos das ações judiciais.
Em 2023, o estado de São Paulo gastou R$ 25,6 milhões entre janeiro e outubro.
Venda de testes rápidos também foi citada
A apuração da Polícia Federal também menciona planos de venda de testes rápidos de dengue e outras arboviroses ao Ministério da Saúde.
Essa tratativa também não se concretizou.
Segundo a revista Veja, a ideia era assinar um contrato de cerca de R$ 1 bilhão por meio de uma importadora com sede em Santana de Parnaíba, em São Paulo.
Valor foi considerado fora da realidade por fontes do setor
Duas pessoas do mercado de produtos para diagnóstico que acompanham licitações do Ministério da Saúde consideraram o valor fora da realidade das compras públicas.
Em 2026, por exemplo, o ministério tem cerca de R$ 700 milhões disponíveis para a compra de insumos voltados à prevenção e ao controle de diversas doenças.
Também é comum que a pasta repasse recursos para estados e municípios, em vez de fazer diretamente as compras dos exames.
Parcerias com laboratório de Goiás aparecem na investigação
Os diálogos entre Roberta e Careca também apontam tratativas para que o Ministério da Saúde aprovasse propostas de parcerias produtivas com a Iquego, laboratório público ligado ao Governo de Goiás.
Os documentos obtidos pela reportagem não mostram quais seriam as parcerias.
Procurada, a Iquego não se manifestou.
Projetos da Iquego foram reprovados pela área técnica
Relatório de gestão da Iquego de 2025 afirma que foram protocolados ao menos 25 projetos nos últimos anos.
As propostas envolviam, entre outros pontos, a fabricação de medicamentos e suplementos alimentares por transferência de tecnologia de empresas privadas.
Todas as propostas, porém, foram reprovadas pela área técnica do Ministério da Saúde.
WorldCann teria feito pagamento a suplente de Damares
O site Metrópoles noticiou que a WorldCann, empresa de Careca do INSS, pagou R$ 500 mil a Manoel Arruda (União Brasil-DF), primeiro suplente da senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Ao site, o advogado afirmou que havia sido contratado para prestar consultoria e assessoria jurídica nos projetos envolvendo a Iquego.
Ele também disse que devolveu o valor à empresa de Careca após a Operação Sem Desconto, que investigou fraudes em aposentadorias.
Damares nega relação com negócios do suplente
Damares afirmou que não tem “qualquer relação ou conhecimento sobre os negócios de seu suplente”.
O caso segue sob investigação da Polícia Federal, enquanto as defesas dos citados negam irregularidades, aguardam acesso aos autos ou afirmam que vão se manifestar apenas dentro do processo.