Interferência de Trump provoca repercussão na Copa do Mundo
Até este domingo (5), Donald Trump ainda não havia comparecido a nenhum jogo da Copa do Mundo. Mesmo assim, a presença política do presidente dos Estados Unidos passou a dominar parte do debate em torno do torneio após ele admitir que intercedeu diretamente junto ao presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Trump afirmou ter pedido a revisão do cartão vermelho recebido pelo atacante americano Folarin Balogun no confronto contra a Bósnia, realizado na quarta-feira (1º), durante a abertura da fase de mata-mata da competição.
Trump ataca árbitro brasileiro Raphael Claus
Além de admitir a conversa com Infantino, o presidente dos Estados Unidos classificou como “suspeito” o árbitro brasileiro Raphael Claus, responsável pela expulsão de Balogun.
“Esse árbitro é um tanto suspeito se você verificar o passado dele”, afirmou.
Após a declaração, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou uma nota em defesa do árbitro, que possui 18 anos de carreira e participa de sua segunda Copa do Mundo, depois de também ter atuado no Mundial do Qatar, em 2022.
“A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus”.
Telefonema entre Trump e Infantino aumenta pressão sobre a Fifa
A interferência admitida pelo republicano mudou a repercussão do Mundial nos Estados Unidos e provocou reações em diferentes partes do mundo.
Infantino também confirmou que houve uma conversa com Trump, mas afirmou que os órgãos responsáveis pelas questões disciplinares da Fifa possuem autonomia.
Mesmo assim, nos principais veículos de comunicação americanos, o episódio passou a ser tratado menos como uma discussão sobre a atuação de Raphael Claus e mais como um teste para a independência da Fifa.
Relação entre Trump e Infantino volta ao centro do debate
A proximidade entre Donald Trump e Gianni Infantino também passou a ser analisada novamente.
Nenhum líder político mundial foi visto mais vezes, nos últimos anos, no Salão Oval da Casa Branca do que o presidente da Fifa.
Em dezembro de 2025, Infantino concedeu a Trump o primeiro Prêmio da Paz da Fifa. A escolha para a homenagem posteriormente virou alvo de denúncias no Parlamento Europeu e no Comitê de Ética da própria entidade.
Imprensa dos EUA questiona independência da Fifa
Nesta segunda-feira (6), The New York Times, The Washington Post, NBC News e ABC News destacaram a relação entre Trump e Infantino, além da admissão de que o presidente americano telefonou para o dirigente.
Os veículos também noticiaram as reações de dirigentes, federações e comentaristas, que passaram a discutir os limites da influência política sobre decisões disciplinares da entidade máxima do futebol.
“Uma decisão como essa levanta claramente questões sobre a integridade do maior evento do futebol mundial”, escreveu The Athletic, braço esportivo do New York Times.
Casa Branca teria oferecido apoio jurídico
De acordo com a ABC News, a Casa Branca chegou a oferecer seus advogados à Federação de Futebol dos Estados Unidos para auxiliar na elaboração do recurso apresentado à Fifa.
A informação aumentou as críticas sobre a participação do governo em um assunto disciplinar ligado diretamente à competição.
Guardian critica impacto da intervenção sobre a seleção dos EUA
A versão americana do jornal britânico Guardian avaliou que a interferência de Trump no caso dos cartões vermelhos prejudica mais do que beneficia a participação dos Estados Unidos no Mundial.
“A percepção de que os EUA receberam uma vantagem injusta —e receberam, sem dúvida— prejudica seu potencial de classificação”, escreveu a publicação.
Ex-goleiro dos EUA lamenta episódio
Em entrevista a Gary Lineker no programa “The Rest Is Football”, da Netflix, o ex-goleiro da seleção dos Estados Unidos Brad Friedel também criticou a revisão da punição aplicada a Folarin Balogun.
“Na verdade, fico triste que isso tenha acontecido com o país”, afirmou, ao comentar as consequências do episódio para a imagem da seleção americana.
Friedel também criticou a interferência do governo em decisões relacionadas ao esporte.
“Ter um governo intervindo em uma decisão… O esporte deveria ser puro, deveria ter suas regras. As regras foram definidas antes do torneio”, disse.
Friedel diz que poderia pedir demissão
Questionado sobre como reagiria se estivesse no lugar de Mauricio Pochettino, técnico da seleção dos Estados Unidos, caso soubesse que a federação teria participado do episódio, Friedel adotou um tom ainda mais duro.
Segundo ele, nessa situação, “talvez eu pedisse demissão antes do jogo”.
Fox News destaca argumento favorável à revisão da punição
Nem todos os veículos e comentaristas americanos trataram o caso da mesma maneira.
A Fox News, emissora mais alinhada à administração Trump, destacou com maior intensidade o argumento do presidente de que a reversão da suspensão de Balogun corrigiria uma expulsão considerada injusta.
Alexi Lalas reage a acusações de favorecimento
Comentarista da Fox, emissora que possui os direitos de transmissão da Copa do Mundo em inglês nos Estados Unidos, o ex-zagueiro da seleção americana Alexi Lalas discutiu com um usuário nas redes sociais.
A interação ocorreu depois que o internauta afirmou que os Estados Unidos estariam avançando no torneio por meio de uma trapaça.
“Quem está trapaceando e como?”, questionou Lalas.
O ex-jogador também classificou a decisão do árbitro Raphael Claus como um “absurdo” e criticou a arbitragem durante o Mundial.
“É preciso dizer que, se o nome dele fosse Messi, como vimos no início do torneio, ele ainda estaria em campo”, afirmou, em referência a uma falta cometida pelo argentino na partida contra a Argélia, ainda na fase de grupos.
Trump admite desconhecimento sobre cartão vermelho
Ao atacar a decisão de Raphael Claus, Trump afirmou que não viu falta de Balogun sobre o bósnio Tarik Muharemovic.
O presidente americano também admitiu que não sabia exatamente o que representava um cartão vermelho antes do episódio.
“Quando descobri, pensei: ‘só pode ser uma brincadeira'”.
A expulsão ocorreu somente após recomendação do VAR, que era comandado naquela partida pelo venezuelano Juan Soto.
Infantino diz ter explicado processo disciplinar da Fifa
Ao confirmar a conversa com Trump, Gianni Infantino afirmou que explicou ao presidente americano como funcionam os processos internos da Fifa.
“Expliquei que havia um processo legal em andamento envolvendo os órgãos judiciais independentes da Fifa e que o caso seria decidido no devido tempo pelos órgãos competentes”, afirmou o cartola em nota.
Uefa afirma que decisão ultrapassou uma linha vermelha
A Uefa, União das Associações Europeias de Futebol, também se manifestou sobre o caso e criticou duramente a decisão da Fifa.
A entidade afirmou que a medida “ultrapassou uma linha vermelha”.
“A decisão de ontem de suspender por um período probatório de um ano a implementação da suspensão automática de um jogo após o cartão vermelho dado ao jogador Folarin Balogun ultrapassou uma linha vermelha. O futebol, como qualquer outro esporte, depende de regras, que são a base para uma competição justa, honesta e transparente. Às vezes, as regras são alvo de interpretação. Neste caso, não”, escreveu a entidade.
Bélgica contesta elegibilidade de Balogun
A Uefa esteve entre as primeiras confederações a reagir porque a Bélgica se considerou especialmente prejudicada pelo episódio.
A Fifa rejeitou um recurso apresentado pela federação belga sobre a elegibilidade de Balogun para o jogo desta segunda-feira (6), em Seattle.
A Bélgica declarou que “não tinha outra alternativa senão contestar a elegibilidade [de Balogun] para a partida”.
Fifa rejeita recurso da federação belga
O comitê de apelação da Fifa considerou o pedido apresentado pela RBFA, Real Associação Belga de Futebol, “inadmissível”.
Segundo a justificativa apresentada, “a RBFA não é parte no processo e, portanto, não tem legitimidade para recorrer da decisão”.
Árbitro da Jordânia apita duelo entre EUA e Bélgica
Em meio à polêmica provocada pela interferência admitida por Trump, a Fifa escolheu o árbitro Adham Makhadmeh, da Jordânia, para comandar o confronto entre Estados Unidos e Bélgica pelas oitavas de final da Copa do Mundo.