Indígenas denunciam ameaças de invasão na Amazônia
Indígenas denunciam que fazendeiros estariam planejando invadir territórios indígenas na Amazônia após o segundo turno das eleições de 2026.
Segundo áudios e relatos reunidos pela reportagem, as ameaças mencionam a possibilidade de invasão caso Flávio Bolsonaro (PL) vença a disputa presidencial.
Os indícios chegaram a autoridades do governo federal, que monitoram a situação.
Caso envolve a Terra Indígena Apyterewa
O caso mais emblemático citado na apuração ocorre no Pará, na Terra Indígena Apyterewa.
O território fica próximo ao rio Xingu e tem histórico de conflitos, violência e desmatamento.
A área é habitada pelos parakanãs, povo de recente contato com não indígenas e considerado mais vulnerável a invasões e interações não controladas.
Áudios indicam ameaças para o dia do segundo turno
Oito áudios obtidos pela reportagem apontam ameaças de invasão ao território previstas para o próximo dia 25, data do segundo turno das eleições.
As mensagens citam Flávio Bolsonaro.
Por razões de segurança, a transcrição dos áudios não será publicada, assim como a identidade dos envolvidos.
Mensagens foram enviadas por WhatsApp
Os recados teriam sido enviados por WhatsApp por moradores da região a lideranças indígenas nos últimos dias.
O material já é de conhecimento de órgãos de inteligência do governo federal.
As mensagens afirmam que fazendeiros aguardariam o dia da eleição para entrar na terra indígena e construir fazendas dentro do território.
Relatos citam expectativa sobre decisões políticas
Segundo a reportagem, os autores das mensagens demonstram expectativa de que, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, o território indígena seja retirado dos parakanãs e entregue a pecuaristas da região.
As mensagens também citam o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos).
A reportagem afirma que cruzou metadados dos áudios com bancos de dados e conversou com investigadores ligados ao caso.
Campanha de Flávio não respondeu
A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada pela reportagem por meio do canal oficial de imprensa desde a noite de quinta-feira (8).
Até a publicação da reportagem, não houve resposta.
A gestão estadual do Pará também foi procurada, mas não se posicionou.
Governador eleito diz que não vai comentar
Dr. Daniel, governador eleito no Pará, informou por meio de sua assessoria que não vai comentar o caso.
As ameaças e os áudios foram discutidos em reunião do Comitê de Desintrusão do governo Lula (PT), realizada na última quinta-feira.
O tema passou a ser acompanhado por diferentes órgãos federais.
PF, Ibama, Funai e ministério monitoram situação
A Polícia Federal (PF), o Ibama, a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas informaram que monitoram a situação.
O Ministério dos Povos Indígenas afirmou que acompanha o “aumento da pressão para a ocupação ilegal do território”.
A pasta também informou que o Comitê deliberou pelo reforço das ações de segurança.
Governo fala em reforço de efetivo
Em nota, o Ministério dos Povos Indígenas disse que haverá aumento do efetivo mobilizado.
A medida tem como objetivo intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais.
“Em relação aos áudios que associam as eleições de 2026 à invasão do território indígena, o Ministério esclarece que a apuração dos fatos compete às autoridades policiais responsáveis pela investigação”, completou.
Ibama cita mobilização em outras áreas protegidas
O Ibama informou que acompanha a situação na região.
“Também há evidências de mobilização em outras regiões da Amazônia, tanto em terras indígenas, quanto em outras áreas protegidas, com vistas à retomada das atividades de garimpo ilegal”, completou o órgão.
A informação reforça a preocupação das autoridades com possíveis novos focos de tensão após o período eleitoral.
PF vê ameaças como sólidas e preocupantes
Um agente da Polícia Federal afirmou à reportagem, sob condição de anonimato, que as informações de inteligência sobre as ameaças aos parakanãs são sólidas e preocupantes.
As autoridades seguem acompanhando os desdobramentos na região.
A preocupação central é evitar novas ocupações ilegais e situações de violência dentro da terra indígena.
Terra Indígena Apyterewa tem histórico de conflito
A Terra Indígena Apyterewa tem longo histórico de disputa territorial.
Durante o governo Jair Bolsonaro (PL), a região registrou forte aumento do desmatamento.
Pecuaristas chegaram a construir uma pequena cidade dentro da área protegida, conhecida como Vila Renascer.
Desmatamento disparou entre 2019 e 2022
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a área desmatada na Apyterewa passou de 18,9 km² em 2018 para 85,3 km² em 2019.
O recorde foi registrado em 2022, com 102,2 km² destruídos.
Em 2023, primeiro ano do governo Lula, o desmatamento caiu para 20,6 km².
STF determinou retirada de invasores
A Apyterewa também foi incluída na ADPF 709.
Em 2020, o então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou que o governo federal expulsasse invasores de áreas indígenas.
Segundo a reportagem, a determinação não foi cumprida pelo governo Bolsonaro.
Desintrusão começou em 2023
O processo de desintrusão na Apyterewa começou em 2023.
A operação enfrentou reação violenta de fazendeiros, com emboscadas contra ações de retirada de gado ilegal.
Em diversos casos, pontes dentro da área foram derrubadas para impedir a passagem dos agentes.
Servidores foram atacados durante operações
Um servidor da Funai foi baleado no fim de 2023 durante ações relacionadas à desintrusão.
Em 2025, um contratado do Ibama foi morto.
Os episódios reforçam o histórico de tensão e violência envolvendo a retirada de invasores da terra indígena.
Incêndios aumentaram nos últimos meses
Nos últimos meses, autoridades ouvidas pela reportagem afirmam que o clima eleitoral voltou a acirrar os ânimos na região.
Os focos de incêndio cresceram nas últimas semanas.
Investigadores apuram se as queimadas foram provocadas de forma proposital.
Focos de incêndio passaram de 41 para mais de mil
Segundo dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu, os focos de incêndio na região passaram de 41 em julho para 626 em agosto.
No mês seguinte, foram registrados 1.007 focos.
O aumento é tratado como um dos pontos de atenção pelas autoridades que acompanham o caso.
Território abriga mais de mil parakanãs
Homologada em 2007, a Terra Indígena Apyterewa fica em São Félix do Xingu, no Pará.
A área ocupa 773 mil hectares.
O território abriga mais de mil indígenas parakanãs de recente contato.
Povo de recente contato exige maior proteção
A classificação de recente contato indica que o povo preserva sua cultura e organização social com autonomia e certo distanciamento da sociedade não indígena.
Por isso, a interação não controlada com invasores representa risco elevado.
A presença de fazendeiros, garimpeiros ou outros grupos externos pode ampliar a vulnerabilidade da população indígena.
Lideranças relatam movimentação de veículos
Em áudios recebidos pelas lideranças e obtidos pela reportagem, moradores relatam maior circulação de motos e caminhonetes.
As mensagens também dizem que fazendeiros estariam comprando lonas e materiais de roça.
Segundo os relatos, o objetivo seria preparar uma invasão após o segundo turno.
Mensagens orientam indígenas a evitar áreas de risco
As mensagens enviadas às lideranças orientam os indígenas a evitar áreas onde pecuaristas já estariam preparando o solo para pastagens e plantações.
Também há sugestões para que os parakanãs deixem a região.
As autoridades seguem monitorando o território e apurando as ameaças relatadas.