Declaração de Milei reacende tensão política entre Argentina e Brasil
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou que prefere a eleição de um integrante da família Bolsonaro no Brasil a “uma solução com o socialismo do século 21”, em referência direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração foi dada durante entrevista à CNN e voltou a circular com força nas redes sociais nos últimos dias.
Milei tem reforçado sua aproximação política com o clã do ex-presidente Jair Bolsonaro e intensificado a oposição ao governo Lula à medida que o cenário eleitoral brasileiro de 2026 começa a ganhar contornos mais definidos. O movimento ocorre em paralelo a derrotas recentes de governos de esquerda em países da América do Sul, como Bolívia e Chile.
Críticas ao governo Lula e alinhamento com a direita
As tensões diplomáticas entre os dois presidentes se agravaram após Milei divulgar, depois da vitória de José Antonio Kast no Chile, um mapa da América do Sul que retratava o Brasil e outros países governados pela esquerda como uma grande favela. A publicação gerou forte reação do governo brasileiro.
Na entrevista concedida antes da prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro, Milei voltou a criticar Lula, especialmente por sua postura em busca de soluções diplomáticas para a crise na Venezuela. O argentino afirmou não ter interesse em dialogar com líderes alinhados ao que chamou de “socialismo do século 21”.
“No programa de TV, Milei criticou o que chamou de ‘socialismo do século 21’, dizendo que não há espaço para diálogo com aqueles alinhados a essa ideologia, uma vez que não enfrentam as consequências de suas ações.”
Preferência explícita pelo bolsonarismo
Apesar de afirmar que as eleições brasileiras são uma decisão soberana do povo, Milei deixou clara sua preferência política.
“Tenho amigos no Brasil. Os Bolsonaros. Se você me tira do papel de político, prefiro uma solução com os Bolsonaros e não uma solução com o socialismo do século 21”, declarou.
O endosso de Jair Bolsonaro, atualmente preso por tentativa de golpe, a uma possível candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência em 2026 também foi citado como um ponto de atenção pelo presidente argentino.
Histórico de atritos entre Lula e Milei
A relação entre Lula e Milei nunca foi harmoniosa. Durante a campanha presidencial argentina de 2023, Milei chegou a defender a prisão do petista, o que gerou desconforto diplomático. Lula, por sua vez, incomodou-se com declarações do argentino e com críticas à sua visita à ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar em Buenos Aires após condenação por corrupção.
Milei também criticou a proximidade entre Lula e o ex-presidente argentino Alberto Fernández, além do apoio dado pelo Brasil ao ex-ministro peronista Sergio Massa, derrotado nas eleições argentinas.
Reação dos filhos de Bolsonaro
Com a prisão de Jair Bolsonaro, coube aos filhos do ex-presidente manter o canal político com Milei. Segundo a coluna Painel, Flávio Bolsonaro planeja encontros com Milei e com José Antonio Kast, em uma série de visitas a líderes da direita sul-americana entre o fim de janeiro e o início de fevereiro.
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também compartilhou trechos da entrevista e elogiou o argentino.
“Javier Milei tem a bússola moral em dia, conhece os perigos do comunismo, socialismo, progressismo e todo esse lixo marxista -a Argentina sentiu isso na pele com os Kirchner”, escreveu nas redes sociais.
Extradição de brasileiros e limites da aliança
Apesar da afinidade ideológica entre o bolsonarismo e o governo Milei, a Justiça argentina determinou, em dezembro, a extradição de brasileiros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro que estavam foragidos no país. A Casa Rosada sinalizou que cumprirá as decisões judiciais, embora ainda caiba recurso.
O episódio demonstra que, apesar do alinhamento político, há limites institucionais na relação entre os governos e que decisões judiciais seguem sendo respeitadas no âmbito internacional.
