Cursos de medicina mal avaliados pelo MEC mantêm mensalidades elevadas
Mesmo apresentando desempenho considerado insatisfatório pelos critérios do Ministério da Educação (MEC), cursos particulares de medicina no Brasil continuam cobrando mensalidades que chegam a R$ 17 mil. Os dados fazem parte de um levantamento realizado pelo jornal Folha de São Paulo, com base nos resultados do Enamed (Exame Nacional das Escolas Médicas).
O estudo aponta que quase todas as 87 instituições privadas de ensino superior que obtiveram avaliação negativa no exame cobram valores superiores a R$ 10 mil mensais dos estudantes. O Enamed é uma nova avaliação criada pelo MEC e aplicada pelo Inep, com o objetivo de medir a qualidade dos cursos de medicina e aplicar sanções às graduações que não atingirem desempenho mínimo.
Como funciona o Enamed e os critérios de avaliação
O Enamed calcula o percentual de alunos que alcançam um nível mínimo de proficiência nos conteúdos da área médica. Após a aplicação da prova, cada curso recebe uma nota que varia de 1 a 5, conforme o desempenho dos estudantes:
1 – até 39,9% de proficiência
2 – entre 40% e 59,9%
3 – de 60% a 74,9%
4 – entre 75% e 89,9%
5 – igual ou superior a 90%
O MEC considera satisfatórios apenas os cursos com nota a partir de 3. Instituições abaixo desse patamar ficam sujeitas a punições administrativas.
Ao todo, 351 cursos de medicina foram avaliados, sendo 176 pertencentes a instituições privadas. Desse total, 87 não alcançaram a nota mínima exigida, incluindo os quatro piores resultados do ranking.
Mensalidades acima da média nacional
A Folha levantou os valores cobrados em 2026 por 69 dessas graduações. As demais não informaram os preços ou não responderam aos contatos da reportagem. Apenas sete cursos apresentaram mensalidades inferiores a R$ 10.866, valor considerado a mediana nacional para o curso de medicina em 2025, segundo levantamento da Hoper Educação.
O pior desempenho do Enamed, com apenas 15,4% de proficiência, foi registrado pela Estácio do Pantanal, no Mato Grosso. O segundo pior resultado, com 21,3%, ficou com outro curso do mesmo grupo, no campus de Angra dos Reis (RJ). As mensalidades informadas são de R$ 13.373,80 e R$ 12.771,15, respectivamente.
Em nota, o grupo Estácio afirmou que “essa primeira edição do Enamed revelou tantos pontos de fragilidade que, no nosso entendimento, não refletem a realidade do ensino oferecido” e defendeu que “não há como tirarmos conclusões ou análises sobre qualidade efetiva a partir do Enamed”.
Valores aumentam nos semestres finais
Na maioria dos cursos avaliados com notas 1 e 2, as mensalidades variam entre R$ 11 mil e R$ 15 mil. Em alguns casos, o valor aumenta significativamente nos últimos semestres.
Na Universidade Brasil, em Fernandópolis (SP), o custo inicial é de R$ 11,2 mil nos quatro primeiros semestres. Já nos quatro finais, a mensalidade chega a R$ 17,3 mil, podendo ser reduzida para R$ 13,9 mil em caso de pagamento antecipado. O curso recebeu nota 1, com 35,9% de proficiência. A instituição declarou que busca melhorar a qualidade do ensino e pediu a revisão da nota atribuída.
Outro exemplo é a Fametro, de Manaus, que cobra mensalidade base de R$ 10,9 mil, mas exige o pagamento inicial de R$ 20,9 mil na primeira parcela. A graduação também recebeu nota 1, com 38,9% de proficiência, e não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Já a Afya do Rio de Janeiro, que recebeu nota 2 com 56,2% de proficiência, cobra R$ 15,8 mil mensais. O grupo Afya afirmou que o Enamed “não pode ser interpretado isoladamente” e justificou o valor citando estrutura de ensino, produção científica e atendimentos gratuitos realizados em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS).
Punições previstas e questionamentos judiciais
Os cursos que não alcançaram a nota mínima no Enamed podem sofrer sanções do MEC, como suspensão do Fies e redução do número de vagas ofertadas. O exame, no entanto, gerou forte reação do setor privado.
A Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) acionou a Justiça para questionar a divulgação dos resultados e os critérios utilizados na avaliação. A entidade argumenta que o exame apresenta falhas metodológicas.
O presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que eventuais inconsistências ocorreram apenas em dados preliminares repassados às instituições, sem impacto nos resultados finais utilizados para o cálculo do desempenho dos cursos e estudantes.
