Base secreta ou satélites? O contrato de R$ 3,4 bi que pôs a Bahia na mira dos EUA
Alya Space
Fundada no fim de 2019 e sediada na Avenida Tancredo Neves, em Salvador, a Alya Space se apresenta como uma das iniciativas privadas mais ambiciosas do setor espacial brasileiro. O projeto prevê o lançamento de 216 nanossatélites em órbita baixa, com sensores ópticos e de radar capazes de gerar imagens com resolução de até 50 cm por pixel.
O plano é dividido nas fases Alya-1 e Alya-2 e envolve contrato estimado em US$ 675 milhões — cerca de R$ 3,4 bilhões na cotação da época — firmado com a fabricante asiática Hong Kong Aerospace Technology Group.
Relatório dos EUA levanta alerta geopolítico
A empresa ganhou repercussão internacional após relatório do Comitê Seleto sobre a China, ligado ao Congresso dos Estados Unidos, afirmar que o Brasil poderia abrigar uma “base militar secreta chinesa” em Salvador.
O documento menciona uma suposta “Estação Terrestre de Tucano” e associa a estrutura à parceria com empresas chinesas do setor aeroespacial. Segundo o relatório, a instalação teria potencial para monitorar ativos militares estrangeiros e rastrear objetos espaciais em tempo real na América do Sul.
O texto sugere que a estrutura poderia influenciar a doutrina espacial brasileira e ampliar a presença estratégica da China na região — ponto sensível para a segurança nacional dos EUA.
O que diz a empresa
A Alya Space nega qualquer vínculo com atividades militares ou operações secretas.
Em nota oficial, a companhia afirma atuar exclusivamente sob marcos civis e comerciais, com foco em monitoramento ambiental, agricultura sustentável, energia limpa e análise territorial. A empresa declara possuir licenças de operação junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT) e atuar sob regulação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Segundo a empresa, as atividades atuais concentram-se em pesquisa e desenvolvimento, sem operação comercial ativa até 2027.
A chamada “Base de Tucano”
A companhia mantém uma fazenda experimental no município de Tucano (BA), descrita como área de calibração para sensores orbitais. O espaço serviria para testes de vegetação, solo e água, alimentando algoritmos de inteligência artificial embarcados nos satélites.
Além disso, estão previstas estações terrestres em Cuiabá, Sorocaba, Bahia e Maranhão, além de centros de controle e processamento de dados.
Origem e articulação técnica
A fundadora e CEO, Aila Raquel Cruz Ribeiro, arquiteta e urbanista, afirma que a empresa nasceu da dificuldade de acesso a imagens de satélite de alta precisão no Brasil. O projeto contou com articulações com especialistas e participação em iniciativas como o Desafio Amazônia 4.0, promovido pela Força Aérea Brasileira, além de colaboração com o Instituto de Estudos Avançados (IEAv).
A busca por um fabricante capaz de produzir satélites em escala industrial levou à parceria com o grupo de Hong Kong, escolhida — segundo a CEO — por critérios técnicos e capacidade produtiva.
Entre inovação e disputa global
Constelações de satélites em órbita baixa tornaram-se ativos estratégicos tanto para economia quanto para segurança internacional. Projetos comerciais passaram a integrar o tabuleiro geopolítico global, especialmente diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China no setor espacial.
Enquanto a Alya Space projeta colocar Salvador no mapa da nova economia espacial latino-americana, o debate diplomático reforça que iniciativas tecnológicas dessa magnitude dificilmente ficam restritas ao campo empresarial.
O desdobramento do caso dependerá de posicionamentos diplomáticos, regulatórios e da evolução concreta do projeto — que, se executado conforme anunciado, poderá transformar a Bahia em polo relevante da indústria espacial no continente.
